Na história da capoeira, duas figuras fundadoras se destacam: Mestre Bimba, que desenvolveu o estilo Regional, e Mestre Pastinha (Vicente Ferreira Pastinha, 1889–1981), que institucionalizou o jogo tradicional. Pastinha reuniu sob um mesmo teto o jogo tradicional, até então praticado de forma dispersa nas ruas, e por meio da academia que fundou transmitiu a filosofia da capoeira às gerações seguintes.
O Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA), fundado por Pastinha em Salvador da Bahia, e sua participação no festival realizado em 1966 em Dacar, capital do Senegal, foram passos importantes na abertura da capoeira para o mundo. Neste artigo tratamos dos primeiros anos do CECA, dos detalhes nos registros de arquivo e da viagem a Dacar em 1966, à luz dos documentos.
A fundação e os primeiros anos do CECA
Segundo os manuscritos de Mestre Pastinha e os relatos de Mestre Noronha, as bases do CECA foram lançadas por volta de 1941. De acordo com esses relatos, o processo começou quando outro mestre passou a Pastinha o comando de uma roda; no entanto, há versões que situam a data exata dessa passagem entre 1941 e 1943.
Embora a academia funcionasse de fato desde 1941, o registro oficial não veio logo. Os registros de cartório e de associações mostram que a escola foi registrada por volta de 1952. Durante a elaboração do estatuto e o registro dos fundadores, houve também algumas divergências administrativas entre os mestres da época.
Pastinha vestia seus alunos com uniforme amarelo e preto, as cores do Ypiranga, time de futebol para o qual torcia. Como comentamos no artigo Capoeira Angola e Capoeira Regional: Quais São as Diferenças?, o CECA tornou-se o principal centro onde se preservou a forma do jogo mais baixa, estratégica e baseada no ritmo.
Capoeira para todos
Mestre Pastinha costumava dizer que a capoeira é para homens, mulheres e crianças.
O Festival de Dacar de 1966 e a delegação brasileira
Em abril de 1966 realizou-se em Dacar, capital do Senegal, o 1º Festival Mundial de Artes Negras (Premier Festival Mondial des Arts Nègres). O evento buscava dar visibilidade aos laços culturais entre os países africanos recém-independentes e a diáspora.
Por iniciativa do Ministério das Relações Exteriores e de Waldir Freitas Oliveira, diretor do Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO), formou-se uma delegação cultural oficial brasileira. Ao lado de escritores e artistas, ela incluía um grupo de capoeira da Bahia.
- Mestre Pastinha (à frente do grupo)
- João Grande (principal aluno de Pastinha)
- Camafeu de Oxóssi (músico e capoeirista)
- Gato Preto
- Roberto Satanás
- Gildo Alfinete
Uma roda em Dacar: um Mestre no atabaque
Quando viajou a Dacar, Mestre Pastinha tinha 77 anos e grave perda de visão. Segundo entrevistas de história oral com Mestre João Grande e Mestre Gildo Alfinete, Pastinha não entrou na roda para jogar durante as apresentações do festival.
Em vez disso, sentou-se ao lado da bateria e tocou o atabaque, o tambor de mão que detalhamos no artigo Instrumentos da Capoeira: Berimbau, Pandeiro, Atabaque e Outros, marcando o ritmo para o grupo. O jogo foi apresentado pelos mestres mais jovens, João Grande, Gato Preto e os demais.
Essa viagem foi o primeiro retorno institucional e internacional de uma prática de raiz africana ao continente de suas origens. Por isso o episódio também se tornou tema de cantigas tradicionais da Capoeira Angola, como ladainhas e chulas, que lembram com reverência a ida de Pastinha a Dacar e sua chegada ao solo africano.
Perguntas frequentes
Quando exatamente o CECA foi fundado?
Segundo a maioria dos relatos, as atividades da academia começaram entre 1941 e 1943, e o registro oficial do estatuto aconteceu por volta de 1952, conforme os documentos.
Mestre Pastinha jogou em Dacar?
Segundo seus alunos e os outros mestres da delegação, por causa da idade e da perda de visão ele não entrou no jogo; manteve o ritmo da roda tocando atabaque.
Quem fazia parte da delegação do festival de Dacar?
Além de Mestre Pastinha, João Grande, Camafeu de Oxóssi, Gato Preto, Roberto Satanás e Gildo Alfinete.
A capoeira da tradição aos dias de hoje
A tradição que Mestre Pastinha cultivou em sua modesta academia no Pelourinho continua viva hoje em academias do mundo inteiro. A capoeira é uma rica herança cultural que reúne ritmo e movimento.
Se você quiser aprender os passos básicos desse jogo de raízes profundas, acompanhar o toque do berimbau e colocar o corpo em movimento, venha para as nossas aulas. Na primeira aula, só de bater palmas você já sente esse clima.
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