Hoje o berimbau é o símbolo da capoeira. É ele que abre a roda e define o ritmo do jogo. Mas esse arco de uma corda nem sempre foi associado à capoeira. Nos desenhos e anotações dos europeus que viajaram pelo Brasil no século XIX, o berimbau aparece quase sempre nas mãos de um músico tocando sozinho na rua.
Neste artigo olhamos para os parentes africanos do berimbau, seus primeiros registros escritos no Brasil e desenhos antigos. Você pode lê-lo como continuação do artigo De Onde Vem o Berimbau?, que conta de forma mais geral a vinda do instrumento da África. Aqui nos concentramos no que os documentos e as imagens dizem.
De onde vem o nome?
Aceita-se em geral que a palavra berimbau vem de mbirimbau, do kimbundu, língua falada em Angola. No Brasil, outros nomes de origem banta também foram usados para o mesmo instrumento: urucungo e madimba lungungu são dois deles.
A quantidade de nomes sugere que o instrumento não chegou ao Brasil de um só lugar nem de uma só vez. Pessoas vindas de regiões diferentes trouxeram seus próprios arcos e seus próprios nomes; com o tempo, todos se encontraram no nome berimbau.
Seus parentes em Angola: mbulumbumba e hungu
O musicólogo austríaco Gerhard Kubik escreveu que o berimbau é quase idêntico ao mbulumbumba do sudoeste de Angola na construção, na técnica e na afinação. Alguns pesquisadores sugerem que o arco chamado hungu, das regiões kimbundu e kongo, pode ser um parente mais próximo. Os pesquisadores não concordam sobre qual seria o ancestral direto.
Segundo os registros, na África esses arcos acompanhavam sobretudo cantos e narrativas. Até agora não há documento que os mostre tocados junto com um jogo de luta. O historiador da capoeira Matthias Röhrig Assunção defende que o encontro entre um jogo de chutes e cabeçadas e o arco musical muito provavelmente aconteceu no Brasil.
Arcos de uma corda com cabaça são tocados não só em Angola, mas em outras partes da África. Em Uganda, por exemplo, os povos baganda e busoga chamam um arco parecido de sekitulege. Por isso os pesquisadores preferem ver o berimbau não como continuação de um único instrumento, mas como o membro brasileiro de uma grande família de arcos musicais.
O berimbau nos desenhos
Os pintores europeus que chegaram ao Rio de Janeiro no início do século XIX desenharam em detalhe a vida de rua da cidade. O álbum do pintor francês Jean-Baptiste Debret (Voyage pittoresque et historique au Brésil), publicado em Paris entre 1834 e 1839, é uma das fontes visuais mais consultadas do período.
Segundo as fontes, nos desenhos dessa época o arco aparece quase sempre nas mãos de um músico de rua: a cabaça apoiada no corpo, o arame batido com uma vareta, o músico tocando para quem passa. Nessas imagens o berimbau não faz parte de uma roda de capoeira; é o instrumento de quem pede esmola ou vende algo.
É preciso ler esses desenhos com cuidado. Os pintores desenharam o que viam com os próprios olhos e para os próprios leitores; alguns detalhes foram completados depois, no ateliê. Mesmo assim, a estrutura do instrumento é em grande parte a mesma do berimbau que tocamos hoje na roda.
Os primeiros registros escritos
Nas fontes escritas, encontramos o instrumento em meados do século XIX. Em 1859, o jornalista francês Charles Ribeyrolles, ao descrever as danças noturnas de africanos escravizados numa fazenda da província do Rio de Janeiro, cita um instrumento de corda fina chamado urucungo e o associa ao batuque.
Nesses mesmos anos a capoeira aparecia com frequência nos registros policiais, mas eles não falam em berimbau. Um relatório da polícia do Rio de 1832 diz que os capoeiras escondiam as armas dentro de marimbas e pedaços de cana; não está claro se o instrumento citado era o berimbau. Para os registros da época, veja o nosso artigo A Capoeira nos Registros da Polícia do Rio no Século XIX.
Como uma só corda produz tantos sons?
O arranjo, que aparece também nos desenhos antigos, é bem engenhoso. O tocador segura o arco com uma mão; o dedo mínimo fica sob o cordão da cabaça, e o polegar e o indicador seguram o dobrão. Com a outra mão segura a baqueta e o caxixi e bate no arame.
O som muda de duas formas. Quando o dobrão encosta de leve no arame, sai um som chiado e abafado; quando é pressionado, o som fica mais agudo. E, conforme a cabaça encosta na barriga e se afasta, o som abre e fecha. Assim se tiram vários sons e uma espécie de vibrato de uma única corda.
Essa técnica é usada de modo parecido nos parentes angolanos. É por isso que Kubik considerou os dois instrumentos iguais também na forma de tocar.
Quando o berimbau virou instrumento da capoeira?
Segundo as fontes, os registros do berimbau acompanhando a capoeira aparecem no início do século XX, na Bahia. Antes, o jogo era acompanhado por tambor e palmas; com o tempo o berimbau tomou o lugar do tambor e passou para o centro da roda.
Mestre Pastinha contou que, nos anos de proibição, alguns capoeiras amarravam uma lâmina de dois gumes na ponta do berimbau, para que o instrumento virasse arma se preciso. É uma lembrança relatada, não uma prática confirmada em documentos.
O curioso é que os arcos musicais tocados em outros contextos no Brasil foram ficando raros. Para Assunção, se o berimbau é tão difundido hoje, uma razão importante é a capoeira.
Rastros antigos no berimbau de hoje
As partes do berimbau que tocamos na roda seguem a mesma lógica dos desenhos antigos: a verga, o arame, a cabaça que funciona como caixa de ressonância, a baqueta que bate no arame, o dobrão ou a pedra que pressiona o arame e muda o som, e o caxixi seguro na mão. Hoje a roda costuma ter três berimbaus: o gunga, de som mais grave, o médio, que segura o ritmo, e a viola, que improvisa.
Para quem quer conhecer o instrumento, descrevemos cada parte no artigo Instrumentos da Capoeira.
- verga: o arco de madeira
- arame: o fio de aço
- cabaça: a caixa de ressonância
- baqueta: a vareta que bate no arame
- dobrão ou pedra: a moeda ou pedra que pressiona o arame
- caxixi: o chocalho de cesta
Perguntas frequentes
O berimbau veio da África?
Arcos parecidos de uma corda ainda são tocados em Angola, e a raiz da palavra é kimbundu. Mas a forma atual do instrumento se definiu no Brasil.
Nos desenhos antigos o berimbau aparece com a capoeira?
Segundo as fontes, nos desenhos do século XIX ele aparece sobretudo nas mãos de músicos de rua. A associação com a capoeira fica clara na Bahia, no início do século XX.
Qual é o primeiro registro escrito do berimbau?
Um dos primeiros registros conhecidos é o instrumento que Charles Ribeyrolles descreveu com o nome de urucungo em 1859.
Ouvindo o berimbau na roda
Na próxima roda, quando ouvir o primeiro som do gunga, você pode pensar no caminho desse instrumento, dos arcos de Angola às ruas do Rio e daí às rodas da Bahia. Nas nossas aulas também ensinamos berimbau passo a passo; na primeira aula, só ouvir já basta.
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