Hoje jogamos capoeira na academia, na roda, com música. No Rio de Janeiro do século XIX, porém, a capoeira era associada a grupos organizados na rua. Esses grupos se chamavam maltas e dividiam entre si os bairros da cidade.
Nos últimos anos do Império, as maltas se reuniram em duas grandes confederações: os Nagoas e os Guaiamuns. Neste artigo contamos o que as fontes dizem sobre esses dois grupos, sua relação com a política e o que aconteceu com eles depois de 1890. Se quiser ver o lado dos documentos policiais, leia também o nosso artigo sobre os registros da polícia do Rio no século XIX.
O que é uma malta?
Malta era o nome, no Rio do século XIX, de um grupo de capoeira ligado a um bairro. Segundo as fontes, as maltas se organizavam em geral em torno do largo de uma igreja e das ruas vizinhas. O nome da malta costumava vir dessa igreja ou da região.
Entre os membros das maltas havia escravizados, libertos, africanos e nascidos no Brasil; conta-se que, com o tempo, imigrantes portugueses também entraram. Os grupos defendiam seu território e se enfrentavam com maltas rivais na rua.
A força de uma malta dependia do tamanho do seu bairro e do número de membros. Algumas controlavam poucas ruas; outras, uma freguesia inteira. Com o crescimento da cidade e da população, o número de maltas também aumentou; os historiadores descrevem esse período como aquele em que a capoeira foi mais visível no Rio.
Duas grandes confederações: Nagoas e Guaiamuns
No fim do Império, as maltas menores se juntaram sob duas grandes bandeiras. A descrição mais detalhada dessas duas confederações está no livro Os Capoeiras, de Plácido de Abreu, publicado em 1886.
Segundo Abreu, os Guaiamuns se identificavam pela cor vermelha e os Nagoas pela branca. O centro dos Guaiamuns era a malta de São Francisco; as maltas de Santa Rita, Ouro Preto, Marinha e São Domingos de Gusmão também faziam parte dessa confederação. Do lado dos Nagoas aparecem as maltas de Santa Luzia, São José, Lapa, Sant’Ana, Moura e Bolinha de Prata. Havia ainda outros grupos menores ligados a cada lado.
- Guaiamuns: cor vermelha; centro em São Francisco
- Nagoas: cor branca; maltas como Santa Luzia, São José, Lapa e Sant’Ana
- Cada confederação tinha um chefe, um ajudante e sua própria divisão de funções (segundo Abreu)
Os chefes: Leandro Bonaparte e Manduca da Praia
Abreu também cita os nomes mais importantes de cada lado. À frente da malta de São Francisco, considerada o centro dos Guaiamuns, estava Leandro Bonaparte. Do lado dos Nagoas, Manduca da Praia aparece como chefe da malta de Santa Luzia.
Esses nomes mostram que as maltas não eram apenas multidões anônimas, mas grupos com líderes e organização interna. Segundo Abreu, cada confederação tinha um chefe, seu ajudante, membros que mantinham a ordem no grupo e membros comuns. O nome do chefe de uma malta era conhecido por todo o bairro.
Boa parte do que sabemos hoje sobre essas pessoas vem de romances, notícias de jornal e registros policiais. Por isso é bom lembrar que os historiadores leem de formas diferentes os detalhes dessas biografias.
Como as maltas treinavam?
Segundo Abreu, os novatos treinavam aos domingos de manhã. Os Guaiamuns se reuniam num ponto do morro do Livramento. Os grupos de São José e Lapa, dos Nagoas, treinavam na praia do Russel, e o grupo de Sant’Ana no morro do Pinto.
O treino começava com mãos, cabeça e pés, depois passava para o pau e, por fim, para a navalha. Parte das cabeçadas e chutes que vemos na roda de hoje já era usada nesse período, mas o contexto não era o mesmo do jogo atual. Para ver os movimentos como são hoje, consulte o nosso guia dos movimentos básicos.
Rivalidade e brigas de rua
A rivalidade entre as duas confederações era dura. Abreu descreve um costume em que um membro de um lado derramava bebida no chão da taverna e dançava em cima para provocar o outro lado; o gesto bastava para começar a briga. Os grupos avisavam antes de um confronto, e as brigas eram acompanhadas de cantos.
Abreu também escreve sobre mortes entre os dois lados e as vinganças que vinham depois. Como esses relatos estão num romance, nem todo detalhe deve ser lido como prova; mas os registros policiais da época também mostram que esses confrontos eram reais.
A relação com a política
As maltas não eram só grupos de rua; em época de eleição, os políticos as usavam. Segundo as fontes, os Nagoas se aliaram ao Partido Conservador e os Guaiamuns ao Partido Liberal. Os dois lados são associados a pressão e fraude nas urnas.
Conta-se que capoeiras também fizeram parte da Guarda Negra, formada depois da abolição, em 1888, para apoiar a Princesa Isabel. Esse vínculo contribuiu para que os republicanos vissem os capoeiras como ameaça. Sobre o fim da escravidão e seus rastros nas cantigas de capoeira, veja o nosso artigo sobre a Lei Áurea.
A República e a grande repressão
Em 15 de novembro de 1889 foi proclamada a República. O novo chefe de polícia do Rio, João Batista Sampaio Ferraz, começou a prender e deportar capoeiras sem esperar decisão judicial. Segundo as fontes, em 3 de janeiro de 1890 um navio de guerra levou 154 capoeiras, entre eles chefes de malta conhecidos, para a ilha de Fernando de Noronha.
O novo Código Penal, de 11 de outubro de 1890, tornou a capoeira crime no capítulo ‘Dos Vadios e Capoeiras’. Explicamos os detalhes desse artigo no nosso artigo sobre o Código Penal de 1890. Depois dessa repressão, os nomes Nagoas e Guaiamuns aparecem cada vez menos nas fontes; as maltas se desfizeram e a capoeira de rua do Rio praticamente acabou.
Parte dos deportados ficou anos na ilha; outros se espalharam por outras cidades. Conta-se que há rastros de capoeiras saídos do Rio em cidades como São Paulo. E quando a capoeira ressurgiu nas décadas seguintes, sobretudo na Bahia, ela se organizaria não como malta de rua, mas como escola e roda.
Perguntas frequentes
O que significam Nagoas e Guaiamuns?
São os nomes das duas grandes confederações em que se reuniram as maltas de capoeira do Rio de Janeiro no fim do século XIX. Há interpretações diferentes sobre a origem das palavras; não existe explicação definitiva.
As maltas têm ligação com os grupos de capoeira de hoje?
Não há continuidade direta. As escolas e grupos de hoje vêm da tradição de ensino criada na Bahia no século XX por Mestre Bimba e Mestre Pastinha.
De onde vêm essas informações?
As principais fontes são o livro de Plácido de Abreu, de 1886, os registros policiais e judiciais da época e os trabalhos dos historiadores que estudaram esses documentos.
Olhando da roda de hoje
A história das maltas mostra que a capoeira não vem de um passado fácil. Depois de proibições, deportações e brigas de rua, no século XX a capoeira foi para as escolas, para a roda e para a música. O jogo que jogamos hoje na academia é o resultado desse longo caminho.
Se quiser conhecer essa história no próprio corpo, com música e na roda, esperamos você nas nossas aulas.
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